A jovem que queria viver...

 

 

 

 

 

Ters olhava para os dois furos na perna levantada, estava deitada no chão com a perna escorada em uma pedra, tudo que podia fazer já tinha feito, mas já sentia os efeitos do veneno se alastrando. Uma dor intensa irradiava pelo seu corpo, sua perna inchava mais e mais e seu coração batia violentamente. Ela não conhecia muito de cobras, mas sabia que aquela era venenosa.

Não viu o animal até ser tarde, o bote foi mais rápido do que sua destreza em fugir dele. Ters correu o quanto pode para encontrar alguém, mas não encontrou, quando seus olhos começavam a ficar embaçados e seu estômago se revirou, ela encontrou um lugar e se deitou, levantou a perna, tirou a bota e levantou a calça até poder ver os furos e o fio de sangue que escorria de um deles. 

 

Estava longe de qualquer vila e fora da estrada, seria muito difícil que alguém a encontrasse ali. O cavalo, que ela levava pela corda, pois a trilha era estreita, se assustou e correu para longe. Sua razão a desenganava da vida, mas sua vontade persistia em lhe dar esperanças. Ters já começava a ficar tonta e sonolenta, a dor era difícil de aguentar, a perna inchava cada vez mais e ela vomitou uma última vez antes de desmaiar...

Uma vez, há muito tempo, quanto Ters era apenas uma criança, seu cavalo disparou. Poucos meses antes desse acontecimento ela havia caído desse mesmo cavalo, e por pouco não bateu a cabeça em uma pedra, ela saiu ilesa, mas demorou um tempo antes de conseguir montar novamente. Então, naquela tarde quando o cavalo disparou, algo em Ters despertou, uma força de vontade que não sabia que tinha, naquele momento ela decidiu que não iria cair, de jeito nenhum.

Vendo que mesmo que puxasse as rédeas várias vezes ele não parava, ela decidiu largá-las para segurar o mais firme que podia nas crinas do animal, não importava se não podia controlá-lo, não iria soltar. Com toda força que tinha, e que não tinha, mas que superou com sua vontade, ela segurou no cavalo e impulsionou seu corpo para frente, cortando o vento que a empurrava com violência para trás. Ters se debruçou sobre ele, apertou os joelhos e cotovelos no torso o quanto pode, e segurou firmemente as crinas do animal até que ele parasse.

Por alguma razão ela se viu novamente naquela tarde, o cavalo estava disparado, e não havia mais como controlá-lo. Daquela vez Ters sabia que o cavalo era a sua vida, que ele estava descontrolado, tentando deixá-la, mas ela se agarrava ao animal, à vida, com força, e não se deixaria cair, não soltaria tão fácil. Com a mesma força de vontade, se agarrou as crinas e segurou firme no animal se impulsionando para frente e se prendendo com todo seu corpo. Não o soltaria por nada.

Quando abriu os olhos ela viu uma sombra ao longe que se mexia, era uma pequena chance que não desperdiçaria. Não conseguia ficar de pé direito e se agarrando no que via na frente, por vezes até engatinhando, Ters se aproximou da sombra que mais e mais tomava a forma do seu cavalo. Ela subiu como pode no lombo do animal e novamente se agarrou, controlando como podia as rédeas e o fazendo trotar, pois estava fraca demais para galopa.

Brigava com os músculos fracos e com os olhos que queriam se fechar, brigava com a dor que não se parecia mais com dor se não algo que latejava e fazia seu corpo tremer, brigava com a ânsia até que ao menos pudesse ver a estrada. Entre uma semi-consciência ela viu movimentos e sentiu o incômodo de ser carregada, cada nova experiência era torturante, e Ters nem entendia bem o que acontecia até que não pode mais vencer a briga e apagou.

Acordou com uma grande dor de cabeça que não a deixava abrir os olhos, sentia tanto frio... Algo em sua testa tinha um calor, com enorme força ela tocou e sentiu o pano quente e molhado com súbito prazer, suas mãos pareciam pedras de gelo e seu corpo doia inteiramente, não havia um lugar que não doesse. Também havia algo esquentando as cobertas, algo perto do seu pé, e escutava o crepitar tranquilizador do fogo. Dormiu.

Ters tremia descontroladamente, pensou que aquele seria seu fim, seu corpo doía ainda mais do que antes e o tremor era torturante. Sentiu algo tocando sua pele, como uma pedra de gelo terrivelmente fria na sua bochecha e ouviu um murmúrio grave, palavras indecifráveis com uma única palavra audível, “resistir”. A palavra ecoou algumas vezes antes que Ters perdesse novamente a consciência. Ela descobriria mais tarde que a frase provavelmente seria algo como: “Não vai resistir”, ou “Não acho que vai resitir”, porque realmente quem a salvou, depois que tudo aquilo passou e Ters já estava bem, disse que ela havia sobrevivido por puro milagre, ou por pura teimosia, talvez os dois...

 

 

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